Até não ser mais
Sara Marques
Andando pelo corredor cinza do último andar, não consigo deixar de notar o quão desconfortável ainda é fazer esse caminho, mesmo depois de tantos anos; sempre sem saber o que esperar no final do corredor: uma promoção ou... . De qualquer maneira, nunca fica mais fácil, você nunca se sente menos suja. Eu estou plenamente ciente de que é irracional me sentir assim. A culpa não é minha. Mas, mesmo assim, eu não consigo parar de pensar no que eu poderia ter feito de diferente pra impedir o que aconteceu, mesmo que não tivesse muito o que fazer. Virando a esquina, entro na sala de espera e vejo uma menina que, um dia, poderia ter se parecido comigo, sentada. Ela tem cabelos loiros e lisos, usa uma blusa de cetim sem mangas, uma saia lápis que vai até os joelhos e um par de salto alto. E, como sempre acontece quando encontro alguém que me lembre de mim mesma quando era mais jovem, eu comecei a lembrar; lembrar das minhas primeiras vezes nessa emissora. Da primeira vez que passei pelas portas giratórias da entrada, da primeira vez que entrei no ar ou que fui chamada na sala do diretor, quando nos conhecemos pela primeira vez e ele me disse que via em mim potencial e que eu tinha tudo pra ser a melhor naquele trabalho, mas que coisas como aquela exigiam sacrifício. Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que ele, baixo, gordo, careca, com dentes amarelos e idade o suficiente pra ser meu pai, abusou de mim. Das coisas que ele fez comigo naquele dia e continuou fazendo por muitos outros até ele decidir que deveria parar. É claro que, como uma mulher vivendo em um mundo de homens, feito para homens, sempre fiquei alerta. Sobre tudo. Nunca usei roupas muito chamativas ou voltei para casa tarde da noite sozinha e sempre fiz questão de manter meus relacionamentos no trabalho estritamente profissionais, mesmo quando havia uma insinuação ou outra que sempre fiz questão de levar a culpa, mesmo que não tivesse tomado partido de mim, e a culpa não fosse minha. E por isso, por todo o cuidado que tive, sempre achei que não fosse acontecer comigo, sempre achei que fosse cuidadosa o suficiente, sempre torci pra ser a exceção. Até não ser mais.
A menina é chamada pra entrar primeiro. Antes que ela alcance a porta eu chego até ela, pego sua mão e tiro-a da sala. Ela vem comigo relutante enquanto eu tento acalma-la e explicar o que teria acontecido. Eu quebro o ciclo. É o que eu deveria ter feito. Em vez disso, assisto enquanto ela entra e sai, 30 minutos depois; muito menos arrumada e animada do que quando entrou. Ela para na frente da porta e olha pra mim, lágrimas já rolando pelo seu rosto. Ela sabe que eu sei o que aconteceu. Ela sai e logo em seguida sou chamada para entrar. Eu paro na frente da porta, dou um suspiro fundo e entro
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