sexta-feira, 9 de maio de 2025

A série “Adolescência” e o perigo da subcultura incel no meio digital

Obra denuncia o avanço silencioso da cultura incel e revela como adolescentes são moldados por discursos de ódio disfarçados de “masculinidade”.

Por Bárbara Rabelo e Melissa Venâncio


Fonte: Pinterest                          

  Com apenas quatro episódios, a minissérie Adolescência, lançada recentemente pela plataforma de streaming Netflix, se tornou um fenômeno global ao retratar os impactos da masculinidade tóxica, da misoginia e do crescimento da subcultura incel no ambiente virtual. A obra tem gerado debates intensos sobre o comportamento masculino na era digital.

  Ao acompanhar a trajetória do protagonista Jamie, a série não se concentra em um mistério ou investigação convencional. Em vez disso, foca nas circunstâncias e nas consequências de comportamentos violentos e misóginos que, muitas vezes, são cultivados desde a adolescência. A produção funciona como um alerta ao escancarar como esses padrões são naturalizados e reforçados ao longo do tempo, especialmente em espaços online.

  Este denominado “incel”, abreviação de “celibatário involuntário” (do inglês involuntary celibates), descreve homens e garotos que se sentem incapazes de estabelecer relacionamentos amorosos ou sexuais e culpam as mulheres por suas frustrações, acreditando que elas merecem ser punidas por isso. Essa ideologia é frequentemente alimentada por discursos de ódio e ressentimento, que podem evoluir para comportamentos violentos, atraindo uma comunidade de meninos mais novos que são instruídos e inspirados por homens que promovem um discurso de superioridade masculina.

 Na internet, fóruns e comunidades incels utilizam uma linguagem própria, com termos como:


Fonte: Google Imagens                                  

  Redpill: inspirado no filme Matrix, o termo representa um suposto "despertar" para uma realidade onde homens seriam injustiçados pelas mulheres e pela sociedade.

  Homens beta: considerados submissos ou fracassados numa suposta hierarquia masculina, em contraste com os "alfas", vistos como dominantes e bem-sucedidos.

  Esses conceitos são explorados em Adolescência através do comportamento de Jamie, um adolescente influenciado por grupos online que reforçam estereótipos de poder masculino, rejeição e superioridade. A série evidencia como jovens, especialmente meninos, podem se tornar alvos fáceis desses discursos quando enfrentam inseguranças, isolamento e falta de orientação emocional adequada.


Fonte: Google Imagens                                    

  Consoante a escritora, jornalista e cronista Milly Lacombe, “os homens não são maus, eles não se tornam criminosos de um dia para o outro, eles são treinados, doutrinados e disciplinados a agirem assim e reproduzirem comportamentos”. A fala reflete uma das principais mensagens da série: a construção da masculinidade não é natural, mas social, e começa cedo, muitas vezes dentro da própria família.

  Desse modo, Adolescência é uma série que retrata um perigo silencioso que pode surgir em qualquer família: a naturalização da violência de gênero e a idealização de uma masculinidade baseada no controle, no ressentimento e na negação das emoções, funcionando como um alerta poderoso transmitido por meio da arte. A série, ao invés de oferecer respostas prontas, propõe uma reflexão profunda sobre o que estamos deixando crescer de forma sigilosa, e até quando.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Texto IA (Ana Alícia)

O desamparo no tempo das multidões Nunca estivemos tão cercados — e tão sós. As ruas se enchem de passos apressados, os ônibus transbordam d...