Obra denuncia o avanço silencioso da cultura incel e revela como adolescentes são moldados por discursos de ódio disfarçados de “masculinidade”.
Por Bárbara Rabelo e Melissa Venâncio
Fonte: Pinterest
Com apenas quatro episódios, a minissérie Adolescência, lançada recentemente pela plataforma de streaming Netflix, se tornou um fenômeno global ao retratar os impactos da masculinidade tóxica, da misoginia e do crescimento da subcultura incel no ambiente virtual. A obra tem gerado debates intensos sobre o comportamento masculino na era digital.
Ao acompanhar a trajetória do protagonista Jamie, a série não se concentra em um mistério ou investigação convencional. Em vez disso, foca nas circunstâncias e nas consequências de comportamentos violentos e misóginos que, muitas vezes, são cultivados desde a adolescência. A produção funciona como um alerta ao escancarar como esses padrões são naturalizados e reforçados ao longo do tempo, especialmente em espaços online.
Este denominado “incel”, abreviação de “celibatário involuntário” (do inglês involuntary celibates), descreve homens e garotos que se sentem incapazes de estabelecer relacionamentos amorosos ou sexuais e culpam as mulheres por suas frustrações, acreditando que elas merecem ser punidas por isso. Essa ideologia é frequentemente alimentada por discursos de ódio e ressentimento, que podem evoluir para comportamentos violentos, atraindo uma comunidade de meninos mais novos que são instruídos e inspirados por homens que promovem um discurso de superioridade masculina.
Na internet, fóruns e comunidades incels utilizam uma linguagem própria, com termos como:
Fonte: Google Imagens
Redpill: inspirado no filme Matrix, o termo representa um suposto "despertar" para uma realidade onde homens seriam injustiçados pelas mulheres e pela sociedade.
Homens beta: considerados submissos ou fracassados numa suposta hierarquia masculina, em contraste com os "alfas", vistos como dominantes e bem-sucedidos.
Esses conceitos são explorados em Adolescência através do comportamento de Jamie, um adolescente influenciado por grupos online que reforçam estereótipos de poder masculino, rejeição e superioridade. A série evidencia como jovens, especialmente meninos, podem se tornar alvos fáceis desses discursos quando enfrentam inseguranças, isolamento e falta de orientação emocional adequada.
Fonte: Google Imagens
Consoante a escritora, jornalista e cronista Milly Lacombe, “os homens não são maus, eles não se tornam criminosos de um dia para o outro, eles são treinados, doutrinados e disciplinados a agirem assim e reproduzirem comportamentos”. A fala reflete uma das principais mensagens da série: a construção da masculinidade não é natural, mas social, e começa cedo, muitas vezes dentro da própria família.
Desse modo, Adolescência é uma série que retrata um perigo silencioso que pode surgir em qualquer família: a naturalização da violência de gênero e a idealização de uma masculinidade baseada no controle, no ressentimento e na negação das emoções, funcionando como um alerta poderoso transmitido por meio da arte. A série, ao invés de oferecer respostas prontas, propõe uma reflexão profunda sobre o que estamos deixando crescer de forma sigilosa, e até quando.
Nenhum comentário:
Postar um comentário