“Fogo Nos Racistas”: Figura do Bandeirante Escravocrata Borba Gato é Incendiada e Pichada no Desfile da Vai-Vai.
Com o brado “preconceito nunca mais”, a bateria fez um protesto emocionante em meio aos toques de samba.
Redação por Luanna Moura
Revista Ateliê de Leitura e Produção Textual | Revisão: Aila Sampaio
Fortaleza (CE) | 13 de fevereiro de 2024, às 13:34
Dançarinos da Vai-Vai desfilam ao redor da figura queimada e pichada de Borba Gato
Neste sábado (10), a escola de samba Vai-Vai, maior campeã do carnaval de São Paulo, abriu a noite no sambódromo do Anhembi com o samba enredo “Capítulo 4. Versículo 3 - Da Rua e do povo, o hip hop: um manifesto paulistano”. A bateria homenageou as contribuições do povo negro à cultura do nosso país, com destaque aos estilos musicais hip hop e trap. Com muito estilo, a Vai-Vai soube conduzir seus posicionamentos críticos através de belos figurinos e sambistas talentosos.
Em meio às roupas coloridas que faziam alusão ao grafite, a escultura do bandeirante Borba Gato chamou a atenção do público. A enorme figura, muito similar ao monumento paulista, tinha luzes vermelhas de LED iluminando seus pés, simulando um incêndio. Além disso, a escultura foi pichada de cima a baixo, sendo a pichação uma forma notória de manifestação, resistência e protesto nos centros urbanos. Na parte de trás do carro alegórico que trazia a escultura, estava escrito “fogo nos racistas”.
De forma literal, a Vai-Vai conseguiu relembrar o público de um protesto ocorrido em 2021 na grande São Paulo, que obteve repercussão nacional. Em julho daquele ano, um grupo de manifestantes que se intitulava Revolução Periférica atearam fogo na estátua de Borba Gato, na zona sul da capital paulista. O monumento, inaugurado em 1963, é alvo de críticas por homenagear um escravocrata, responsável por dizimar povos indígenas durante o processo de interiorização do território brasileiro. A estátua já havia sido pichada em 2016, juntamente com o Monumento às Bandeiras, outro símbolo da exploração colonial.
O posicionamento moral e político da escola de samba não parou por aí. Em uma de suas canções, o enredo trouxe a sua mensagem de forma explícita mais uma vez: “Preconceito nunca mais. Fogo na estrutura. Justiça, igualdade e paz”, dizia a letra, em referência à estrutura racista da sociedade brasileira. E para sedimentar as crenças da bateria, o comentarista Milton Cunha deixou bem claro: “Não somos todos iguais; não viemos dos mesmos lugares”. Num país cujos preconceitos são tão enraizados, a meritocracia não tem espaço, e cabe a nós lutar por um futuro melhor.

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