“O Escândalo” faz da coragem a principal notícia
Filme é bem sucedido ao mostrar uma das funções mais importantes do jornalismo: a de denúncia
Luanna Moura | Revista Ateliê de Leitura e Produção Textual
11.03.2024 às 16:12 | atualizado em 19/06/2024 às 09:39
Foto: Divulgação/Lionsgate
Ao se deparar com o poster oficial do filme “O Escândalo”, de 2019, um espectador desavisado pode confundi-lo com uma nova versão de As Panteras, ainda mais quando se leva em conta o seu título original em inglês “Bombshell” (em tradução livre: “mulherão”). No entanto, o semblante sério de Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie nos avisam que não é uma aventura eletrizante que está por vir; muito pelo contrário — estamos prestes a enfrentar uma grande dor de cabeça.
É certo que, em 2019, a sociedade americana ainda tinha muito frescas na memória as acusações de abuso sexual contra o grande chefão da Fox News, Roger Ailes, que vieram à tona dois anos antes. A decisão do diretor, Jay Roach, de abordar um assunto tão delicado muito antes de a poeira baixar, é uma prova de seu compromisso com a denúncia social que tanto o cinema quanto o jornalismo são conhecidos por proporcionarem.
Juntamente com o roteirista Charles Randolph, o diretor consegue mostrar o processo de denúncia como ele é de fato: uma cadeia de eventos desordenados que partem de um ponto principal. E esse ponto é o processo de Gretchen Carlson (Nicole Kidman) contra o diretor da Fox (John Lithgow) por abuso sexual. Em estilo documental com direito a algumas quebras da quarta parede, a problemática é apresentada e desenvolvida através do questionamento ao status quo em uma sequência de protestos corajosos.
Somos introduzidos ao ritmo frenético dos bastidores do jornal televisivo com a figura política de Donald Trump, um notório misógino, cujas falas difamadoras contra mulheres beiram ao censurável. Megyn Kelly (Charlize Theron) é a âncora responsável por moderar o debate primário republicano e está determinada a bater de frente com as ideias de Trump. Quando Megyn cita as falas problemáticas do político em relação às mulheres durante o debate ao vivo, sua carreira se torna alvo de comentários ainda piores do que os do então futuro presidente, comentários esses que se tornam um boicote movido pelas redes sociais.
No filme, as linhas do pensamento machista são apresentadas de forma bastante clara, sem eufemismos ou censuras. Não só a carreira de Megyn se torna alvo de críticas injustas, mas também a sua aparência e o seu estado de sanidade. O longa-metragem representa a covardia e a insustentabilidade de um mundo governado por homens incapazes de enxergar mulheres além de objetos. Se uma mulher questiona os seus opressores, ela é automaticamente taxada de louca e, de repente, toda sua atratividade desaparece.
Assim, a aparência da apresentadora Gretchen também é violentamente caçoada por Roger. Ele a reprime depois que ela aparece ao vivo sem maquiagem para incentivar as meninas a “serem elas mesmas”. Infelizmente para Roger, aquele não seria o último atrito entre os dois; depois de aturar em silêncio um rebaixamento de horário por se recusar a ter relações sexuais com o seu chefe, Gretchen abre um processo público contra Roger. Ciente de que outras mulheres também criariam coragem de denunciar seus próprios abusos depois do seu ato, Gretchen permanece firme em meio às acusações de que seu sofrimento não passaria de mentiras difamatórias.
Como qualquer revelação polêmica, as palavras de Gretchen são vistas como irreais. Roger possui muitos aliados dispostos a dividir trincheiras com ele nessa guerra; ainda que o processo ganhe atenção midiática, um homem poderoso como ele não sai prejudicado logo de início.
As coisas começam a mudar quando Megyn, que também foi assediada por Roger, sai à procura de testemunhas. Aqui, Charlize Theron faz um belo trabalho ao demonstrar o estresse e a insegurança de uma vítima de abuso sexual na jornada até a denúncia. Seu silêncio é questionado por Kayla Pospisil (Margot Robbie), outra vítima de Roger, que lhe pergunta: “você não pensou no quanto o seu silêncio poderia afetar todas nós?”. O diálogo das duas é particularmente impactante por mostrar o dilema entre se submeter para crescer na empresa e lutar pela justiça por si mesma e por outras mulheres.
A narrativa chega a seu grande ápice quando Megyn denuncia Roger publicamente. A melhor parte, sem dúvida, é quando a advogada de Roger lhe conta que as acusações de Gretchen são baseadas em evidências gravadas. Ver o rosto de Roger murchar em desesperança é como saborear um prato frio de vingança: extremamente satisfatório.
Um ponto interessante é que, antes mesmo que Megyn fizesse sua denúncia formal, vinte e duas mulheres já haviam passado para contar suas próprias histórias de horror. A coragem de uma única mulher fez com que um efeito borboleta se desencadeasse, derrubando, assim, alguém considerado intocável. Embora o ritmo do filme não seja dos melhores, ele consegue passar a sua mensagem. Sem dúvida, o ponto alto é a atuação das três personagens principais e a sensibilidade ao mostrar os seus sentimentos (culpa, raiva, vulnerabilidade, medo, dentre outros).
É um filme que cumpre o que promete e o faz sem medo de controvérsias, sem medo de mostrar as faces mais nocivas do machismo em ambientes corporativos e em qualquer tipo de contexto. O mais importante, porém, é que o filme se compromete com a verdade, tal qual um bom jornalista. No fim das contas, escândalos são necessários de vez em quando.

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