Crônica: Multidões Solitárias
Na metrópole, a solidão veste terno, anda apressada e usa uma máscara como escudo. o ritmo é acelerado, robotizado e cronometrado. Está nos olhos que se fecham por exaustão, que choram somente quando há tempo, está nos fones que abafam o mundo e calam a realidade, está no anseio pela falsa produtividade, pelos falsos alívios de consumo, pela falsa esperança que nunca chega.
A solidão não veste só terno, ela também veste avental, luvas de borracha, macacões sujos de graxa. Ela é movida pelo mundo e também responsável por movê-lo.
Milhares de janelas acesas revelam vidas paralelas, isoladas em cubículos de concreto.
Lá embaixo, a vida também acontece, mas de forma diferente.
É uma solidão barulhenta, povoada por alarmes, filas, e buzinas. Uma solidão que não se cala, mas também não acolhe. E quanto mais alto o prédio, menos quem está em baixo consegue ver o topo.
A solidão urbana não vem da falta de pessoas, mas sim da falta de tempo, da busca
incessante pelo mínimo, ela se alimenta na injustiça. Dessa forma se vive, cada um no seu destino, cada um no seu desamparo, cada um na sua negação e na sua fome por pertencimento.
A metrópole tenta sufocar, mas, ainda assim, a humanidade teima em florescer até no asfalto. Mesmo solitários, ainda buscamos um propósito, ainda enxergamos uma luz, ainda abraçamos a resistência e mesmo com escudos, simplesmente sobrevivemos.
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