Como viver em um mundo que não é feito para mim? Por volta dos meus 11 anos de idade, quando o mundo começou a me revelar a realidade de viver como uma mulher nele, questionamentos como esse surgiram e vagam até hoje. E como para maioria de nós, quando nos encontramos sem respostas, naturalmente começamos a viver, aos poucos sem perceber nos adequando, nos moldando nas milhares de caixas, começamos apenas a aceitar, quase que intrinsicamente o que não é e nunca foi natural. Conversando com uma amiga, ela me relata como foi sua vivência, diariamente chegava em sua casa e era obrigada a fazer as tarefas domésticas enquanto via seus três irmãos descansando em plena paz, esperando serem servidos. Um dia, cansada da rotina ela pergunta a mãe o por que daquilo, o por que a responsabilidade caía somente sobre ela, a única filha da família, e assim veio a resposta tão vaga e ao mesmo tempo tão carregada de significados: “minha filha, eles são homens”. Foi quando pela primeira vez duvidou do pra que realmente foi feita, e de como o mundo a enxerga.
“Eles são homens”, simples assim, Uma mera frase de três palavras, uma justificativa percorrida por gerações e gerações de mulheres movidas pela conformação, movidas pelo medo, movidas pela falsa responsabilidade, movidas pela necessidade de servir, de sempre agradar, de nunca decepcionar, movidas pela insegurança dentro de lugares e colos que deveriam proteger. Movidas Pela incessante pergunta que infelizmente ainda percorrerá: Como sobreVIVER? Num mundo que morremos por existir?
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