A Solidão Acompanhada
No metrô lotado das sete da manhã, ela se equilibrava entre desconhecidos. Homens de terno, mulheres com fones, jovens grudados nas telas. Ninguém se olhava. Cada um imerso em seu próprio universo, como ilhas cercadas por um mar de gente. E, no entanto, ali estavam todos — juntos, mas inalcançáveis.
A cidade fervilhava: buzinas, passos apressados, anúncios ecoando pelos alto-falantes. Era barulho demais para quem sentia silêncio por dentro. No café da esquina, dezenas se sentavam lado a lado, cada um em sua bolha digital. Likes substituíam olhares; emojis, palavras.
Ela sorriu para um senhor que lia o jornal. Ele não percebeu. Seguiu lendo, mergulhado no papel como quem se protege da maré humana.
A solidão, ali, não era ausência. Era excesso. Excesso de corpos, de pressa, de distrações. Uma solidão povoada — e, por isso mesmo, mais aguda. Porque nada dói tanto quanto estar cercado e, ainda assim, sentir-se invisível.
À noite, da janela do seu apartamento, ela via as luzes pulsando como corações elétricos. Havia vida em todo canto, mas nenhuma ligação entre as pessoas. Cada apartamento era um farol isolado, brilhando para ninguém , cada um em seu mundo , na sua realidade , no seu universo.
Tentou ligar para alguém, mas parou antes do segundo toque. Ela se perguntava , ''oque fazer''. Em cidades como essa, até a carência tem vergonha de incomodar. A solidão não é mais um acaso: é rotina, paisagem, faz parte do cotidiano dessa pessoa
E assim se segue: conectados por sinais do dia a dia , mas desligados por dentro.
Caio Nuto
Nenhum comentário:
Postar um comentário