Solidão de Semáforo
No meio da correria da cidade, é curioso como a gente se esbarra tanto, mas se encontra tão pouco. São milhares cruzando a mesma calçada, todos com pressa, todos indo a algum lugar — e, mesmo assim, quase ninguém se olha nos olhos.
A cidade pulsa vida. Tem buzina, tem passo apressado, tem gente falando alto ao celular. Mas, no fundo, carrega no peito uma solidão de cimento. E não é por falta de gente, não. É por excesso. Excesso de presença sem afeto.
Tem quem more no mesmo prédio há anos sem saber o nome do vizinho do lado. Tem quem pegue o mesmo ônibus, desça no mesmo ponto, todos os dias, sem nunca trocar um “bom dia”. A gente vive cercado, mas meio ausente.
Nos cafés, nos trens, nas filas de banco, todo mundo junto e separado. Fones de ouvido no último volume, olhos grudados nas telas. Cada um na sua bolha, na sua pressa. A cidade é feita de encontros que não se cumprimentam.
Mas, de vez em quando, escapa. Um sorriso de um desconhecido no metrô. Um cachorro simpático que insiste em lamber mãos alheias. Um “precisa de ajuda?” vindo de alguém que não devia se importar. Pequenos desvios no roteiro da indiferença.
A solidão urbana não é um quarto vazio, é uma multidão silenciosa. Olhares desviados, histórias engavetadas, afetos economizados. Mas também há brechas. E é por elas que, às vezes, o humano escapa.
Um bilhete esquecido numa cadeira. Um "vai com cuidado" entre desconhecidos. Um guarda-chuva dividido sob a tempestade. Um elevador segurado no último segundo. Uma risada espontânea que fura a bolha dos fones. Uma criança que estende o brinquedo pra consolar o choro alheio.
Uma conversa que começa por acaso e termina com vontade de continuar. Nessas brechas, o concreto amolece. E, mesmo que por segundos, a cidade lembra que ainda tem gente dentro dela.
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