sexta-feira, 23 de maio de 2025

Crônica — O eco do desamparo (IA)


     Num mundo onde tudo grita, o silêncio do indivíduo passa despercebido. Caminhamos entre prédios altos e telas brilhantes, com os olhos baixos e os fones no ouvido, anestesiados pela pressa e pelo algoritmo. As conexões são muitas, mas os vínculos, escassos. Mandamos mensagens rápidas, emojis sorridentes, enquanto por dentro choramos num idioma que ninguém parece entender.

 

   Tomamos café frio após passar uma hora rolando vídeos, mais sobre consumismo do que o que realmente precisamos. Andamos em direção ao ponto, juntamos moedas para a passagem pensando naquele carro caro que necessitamos. Nos apossamos de um acento e nos deixamos levar mais duas horas de viagem até em casa, almejando a vida perfeita de algum ser falso na tela.

 

    O desamparo se esconde nas entrelinhas das redes sociais, nos corredores dos apartamentos silenciosos, nas conversas interrompidas por notificações. Cada um com sua dor pequena, mas insuportável — e quase sempre invisível. A cidade não para para acolher ninguém. Ela avança, indiferente, como se nossos tropeços fossem parte do asfalto.

 

    Em um breve intervalo, pensamos em escapar, apagar um aplicativo ou outro, juntamos listas de livros para tirar a mente da janela digital, procuramos filmes que aumentem nosso sociocultural mas quando menos percebemos, a loja que compramos online está em promoção, aquele influencer acabou de mostrar como ganhar um dinheiro fácil.

 

    O indivíduo contemporâneo é um náufrago com Wi-Fi. Tem acesso a tudo, menos a um olhar que escute. Falta abraço que dure mais de cinco segundos, falta tempo para perguntas sinceras, falta a coragem de dizer: “eu também me sinto assim”. E assim seguimos, sozinhos, juntos, num mundo lotado.

 

     Mas, vez ou outra, um gesto inesperado — um bom dia sincero, uma escuta sem pressa — resgata do fundo do peito a esperança: talvez ainda haja salvação na gentileza. Talvez a humanidade não tenha se perdido, apenas se distraído.


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