terça-feira, 29 de abril de 2025

Uma janela, uma rua e um segredo - Sarah Ayres

Crônica sobre um dia de chuva

Por Sarah Ayres


      O som de mil gotas d’água caindo de uma só vez percorre as ruas, e, com o eco de cada gota em queda, um pássaro dispara para o céu, enquanto um gato rosna cada vez mais alto, resistindo aos esforços de um homem para acalmá-lo. Mas é inútil — não importa o quanto ele suavize a voz, nem o quanto ele tente se encolher para parecer inofensivo — o gato não cede, e a chuva deixa tudo pior.

      Em outro lugar, na encosta da praia, uma mulher canta para o vento enquanto ele lança água contra seu rosto; enquanto o trovão ilumina o céu, e a água abaixo se rebela contra a força que a mantém contida — uma força que nunca a deixa tomar para si o mundo e recuperar o que um dia já foi seu.

      O riso de cinco crianças entra na casa por uma janela aberta, enquanto a mais velha lidera o grupo até uma calha, onde todos esperam a água cair sobre suas cabeças. Em suas mentes, fingem estar em outro lugar — um parque aquático — e, em vez de uma calha, a água desaba de um imenso balde, cristalina e pura.

      Do outro lado da rua, uma senhora xinga o filho ao vê-lo invadir a casa — roupas encharcadas, cabelo pingando, e um sorriso quase convincente o suficiente para fazê-la acreditar que ele não está aprontando nada; que o carro da família agora esteja sujo de lama, apodrecido como a própria morte, não é culpa dele, claro, mas da irmã.

      Um cachorro preto se encolhe contra uma parede — ou seria contra as costas de um homem deitado na calçada?

      É difícil dizer o que realmente acontece naquela rua, com o vidro da janela embaçado e a chuva se intensificando. E, ainda assim, por alguma razão, é como se a menina dentro da casa soubesse exatamente o que está prestes a acontecer. Não porque tenha alguma habilidade misteriosa — mas porque é assim que as coisas sempre seguem após um dia de chuva.

      Ela sabe que aquela senhora acabará cedendo, enxergará através das mentiras do filho e encontrará um jeito de se redimir com a filha, que não tem culpa alguma. Sabe que aquele pássaro nunca voltará, mas que, um dia, outro ocupará o ninho na árvore que sua mãe tanto estima. Sabe que o gato se cansará de sentir medo e, por fim, permitirá que sua natureza fale mais alto, aceitando a presença daquele homem. E sabe que aquelas crianças irão se arrepender de brincar na rua durante o temporal assim que vier o primeiro espirro.

      E aquela mulher na encosta? Bem, ela é um mistério, a menina precisa admitir. Porque, por mais previsível que seja o que acontece depois de um dia de chuva, sempre há algo inesperado — um último raio antes de o sol rasgar o céu; uma última rajada de vento antes que tudo fique quieto e o calor familiar retorne. E a presença daquela mulher é exatamente isso.

      Por isso, a menina não tenta adivinhar. Mesmo que ela mesma siga seu próprio padrão para dias chuvosos — se escondendo sob as cobertas, sonhando sobre tons de amarelo e azul — isso não significa que aquela mulher precise fazer o mesmo. Ela pode se esconder, mas aquela mulher também tem o direito de se tornar a tempestade, se esse for o segredo que carrega, se for isso que a espera.

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