Crônica baseada no filme “Escândalo”
Por Sarah Ayres
Coisas ordinárias. Coisas que, talvez, quando ela as descobrisse, a machucassem por um tempo, mas que, ainda assim, não teria sido o suficiente para fazê-la hesitar ao atravessar uma rua, ou entrar em um local cheio de conhecidos; não teria sido o suficiente para fazer sua postura enrijecer, ou seus lábios tremerem. Talvez fossem o bastante para fazê-la chorar. Mas, bem, chorar não é, nunca foi, e jamais vai ser algo reservado apenas a uma mulher; é humano.
Mas medo constante? Ah. Isso, sim, era algo que, por muito tempo, pareceu ter sido feito apenas para punir mulheres. Mas não era medo do escuro, ou medo de um animal que talvez fosse um predador — era medo do mal. Não o tipo de mal que criancinhas ouviam falar antes de dormir; era o tipo de mal que fazia com que uma notícia sensacionalista sobre a vida — ou melhor: o fim da vida — de uma mulher saísse na primeira página de um jornal.
Havia também o cuidado. Uma palavrinha tão simples, mas que assombraria uma mulher por toda a sua vida. Cuidado ao atravessar uma rua, cuidado ao falar com um estranho, cuidado ao ir em uma festa, cuidado ao ficar sozinha com o seu chefe no escritório dele. Mas era quase trágica, a maneira que, não importava o quanto ela tentasse, mulher alguma jamais poderia ter cuidado o suficiente: porque nada nunca é — e nunca foi — capaz de pôr um fim a isso.
Aquela sombra, um dia, iria parar de espreitá-la, mas não porque a deixaria em paz; a sombra iria, na verdade, se unir a mulher, cravar suas garras em seu ser, e tirar dela o que quer que ainda restasse de sua esperança.
Não é todo dia que uma mulher pisa na rua, no ônibus, no seu trabalho, na sua casa, na escola — em lugar algum — e pensa: “por acaso, algum dia, deixarei de ser uma presa?” Ainda assim, algumas vezes, ela o faz. E quando esse pensamento vem a sua mente, ela reza e deseja. Então, ela tenta agir, e espera que aquela força maior controlando a sua vida permita que ela saia disso — se não ilesa, então, ao menos, viva.
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