terça-feira, 29 de abril de 2025

Av. 1 - Notícia - Sarah Ayres

RJ: Feirante morre afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas

Corpo foi encontrado por morador do bairro, que acionou a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros.

Por Sarah Ayres, Ateliê de Produção Textual
14/03/2025

      Um homem de 45 anos morreu afogado na noite de ontem (13) após cair na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

      A vítima foi identificada como João Gabriel Castillo Neves, mais conhecido como "João Gostoso". Ele trabalhava como carregador em feiras livres. Seu corpo foi encontrado por um morador da região na manhã desta quarta-feira (14), que imediatamente acionou a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros.

      De acordo com as autoridades, durante exames de necropsia, foram encontrados vestígios de álcool em seu organismo.

      Testemunhas relataram que, na noite anterior, João Gabriel esteve em um bar próximo à Lagoa. Ele teria contado a um funcionário do estabelecimento que havia sido demitido, antes de se envolver em uma discussão com outro cliente. Após o desentendimento, ele deixou o local e seguiu em direção à Lagoa, onde foi encontrado sem vida na manhã seguinte.

      O caso está sendo investigado para esclarecer as circunstâncias do afogamento.

Uma janela, uma rua e um segredo - Sarah Ayres

Crônica sobre um dia de chuva

Por Sarah Ayres


      O som de mil gotas d’água caindo de uma só vez percorre as ruas, e, com o eco de cada gota em queda, um pássaro dispara para o céu, enquanto um gato rosna cada vez mais alto, resistindo aos esforços de um homem para acalmá-lo. Mas é inútil — não importa o quanto ele suavize a voz, nem o quanto ele tente se encolher para parecer inofensivo — o gato não cede, e a chuva deixa tudo pior.

      Em outro lugar, na encosta da praia, uma mulher canta para o vento enquanto ele lança água contra seu rosto; enquanto o trovão ilumina o céu, e a água abaixo se rebela contra a força que a mantém contida — uma força que nunca a deixa tomar para si o mundo e recuperar o que um dia já foi seu.

      O riso de cinco crianças entra na casa por uma janela aberta, enquanto a mais velha lidera o grupo até uma calha, onde todos esperam a água cair sobre suas cabeças. Em suas mentes, fingem estar em outro lugar — um parque aquático — e, em vez de uma calha, a água desaba de um imenso balde, cristalina e pura.

      Do outro lado da rua, uma senhora xinga o filho ao vê-lo invadir a casa — roupas encharcadas, cabelo pingando, e um sorriso quase convincente o suficiente para fazê-la acreditar que ele não está aprontando nada; que o carro da família agora esteja sujo de lama, apodrecido como a própria morte, não é culpa dele, claro, mas da irmã.

      Um cachorro preto se encolhe contra uma parede — ou seria contra as costas de um homem deitado na calçada?

      É difícil dizer o que realmente acontece naquela rua, com o vidro da janela embaçado e a chuva se intensificando. E, ainda assim, por alguma razão, é como se a menina dentro da casa soubesse exatamente o que está prestes a acontecer. Não porque tenha alguma habilidade misteriosa — mas porque é assim que as coisas sempre seguem após um dia de chuva.

      Ela sabe que aquela senhora acabará cedendo, enxergará através das mentiras do filho e encontrará um jeito de se redimir com a filha, que não tem culpa alguma. Sabe que aquele pássaro nunca voltará, mas que, um dia, outro ocupará o ninho na árvore que sua mãe tanto estima. Sabe que o gato se cansará de sentir medo e, por fim, permitirá que sua natureza fale mais alto, aceitando a presença daquele homem. E sabe que aquelas crianças irão se arrepender de brincar na rua durante o temporal assim que vier o primeiro espirro.

      E aquela mulher na encosta? Bem, ela é um mistério, a menina precisa admitir. Porque, por mais previsível que seja o que acontece depois de um dia de chuva, sempre há algo inesperado — um último raio antes de o sol rasgar o céu; uma última rajada de vento antes que tudo fique quieto e o calor familiar retorne. E a presença daquela mulher é exatamente isso.

      Por isso, a menina não tenta adivinhar. Mesmo que ela mesma siga seu próprio padrão para dias chuvosos — se escondendo sob as cobertas, sonhando sobre tons de amarelo e azul — isso não significa que aquela mulher precise fazer o mesmo. Ela pode se esconder, mas aquela mulher também tem o direito de se tornar a tempestade, se esse for o segredo que carrega, se for isso que a espera.

Não é todo dia - Sarah Ayres

Crônica baseada no filme “Escândalo”

Por Sarah Ayres


      Não é todo dia que uma mulher pisa na rua enquanto pensa: “onde ela vai aparecer, a primeira sombra que ficará à minha espreita, seguindo cada um dos meus passos?” Não. De jeito nenhum. Na verdade, muitas outras coisas podem cruzar a mente de uma mulher antes disso. Às vezes, o tempo, ou então uma notícia sobre um ex-presidente prestes a ser preso; o falecimento de uma amiga de sua mãe; seus filhos; a pessoa a qual ela ama. E, na maioria da vezes, aquilo que o futuro guarda para ela: grandeza — ou a possibilidade de alcançá-la.

      Coisas ordinárias. Coisas que, talvez, quando ela as descobrisse, a machucassem por um tempo, mas que, ainda assim, não teria sido o suficiente para fazê-la hesitar ao atravessar uma rua, ou entrar em um local cheio de conhecidos; não teria sido o suficiente para fazer sua postura enrijecer, ou seus lábios tremerem. Talvez fossem o bastante para fazê-la chorar. Mas, bem, chorar não é, nunca foi, e jamais vai ser algo reservado apenas a uma mulher; é humano.

      Mas medo constante? Ah. Isso, sim, era algo que, por muito tempo, pareceu ter sido feito apenas para punir mulheres. Mas não era medo do escuro, ou medo de um animal que talvez fosse um predador — era medo do mal. Não o tipo de mal que criancinhas ouviam falar antes de dormir; era o tipo de mal que fazia com que uma notícia sensacionalista sobre a vida — ou melhor: o fim da vida — de uma mulher saísse na primeira página de um jornal.

      Havia também o cuidado. Uma palavrinha tão simples, mas que assombraria uma mulher por toda a sua vida. Cuidado ao atravessar uma rua, cuidado ao falar com um estranho, cuidado ao ir em uma festa, cuidado ao ficar sozinha com o seu chefe no escritório dele. Mas era quase trágica, a maneira que, não importava o quanto ela tentasse, mulher alguma jamais poderia ter cuidado o suficiente: porque nada nunca é — e nunca foi — capaz de pôr um fim a isso.

      Aquela sombra, um dia, iria parar de espreitá-la, mas não porque a deixaria em paz; a sombra iria, na verdade, se unir a mulher, cravar suas garras em seu ser, e tirar dela o que quer que ainda restasse de sua esperança.

      Não é todo dia que uma mulher pisa na rua, no ônibus, no seu trabalho, na sua casa, na escola — em lugar algum — e pensa: “por acaso, algum dia, deixarei de ser uma presa?” Ainda assim, algumas vezes, ela o faz. E quando esse pensamento vem a sua mente, ela reza e deseja. Então, ela tenta agir, e espera que aquela força maior controlando a sua vida permita que ela saia disso — se não ilesa, então, ao menos, viva.







quarta-feira, 9 de abril de 2025

Resenha — A História Verdadeira (True Story)

por Bárbara Rabelo

Baseado em fatos, A História Verdadeira (2015), dirigido por Rupert Goold, parte de um encontro improvável: um jornalista desacreditado e um acusado de assassinato. A trama gira em torno de Michael Finkel (Jonah Hill), ex-repórter do New York Times, cuja carreira desmorona depois de ser apanhado manipulando informações em uma reportagem. É nesse momento de fragilidade que ele descobre que Christian Longo (James Franco), homem procurado pela polícia, suspeito de matar sua própria família, usava seu nome enquanto estava foragido.

Intrigado pela coincidência, Finkel arranja uma reunião com Longo na prisão e lhe oferece um acordo: entrevistas em troca de uma tentativa honesta de contar a sua versão dos fatos. No entanto, o que começa como uma investigação promissora rapidamente se transforma num jogo psicológico tenso, em que é difícil saber quem controla quem. Longo nunca mente descaradamente, mas também nunca diz toda a verdade. Em vez disso, ele entrega frases ambíguas, confissões incompletas, e aos poucos se aproveita da necessidade de Finkel de ser útil outra vez, de provar que ainda é um bom jornalista.

O filme segue o caminho da sutileza, dos diálogos carregados de subtexto e da construção lenta de uma atmosfera incômoda. A tensão não se eleva ao nível de ação, mas de dúvida. Em determinado momento, Longo envia a Finkel um texto com o título “Sombras”, narrando com detalhes perturbadores o assassinato de sua filha mais velha. É aí que a máscara cai: Longo sabia exatamente o que fazia. E Finkel, até então envolvido emocionalmente na história, percebe que foi manipulado. Ele foi usado como instrumento o tempo todo para uma espécie de defesa pública bem elaborada.

A História Verdadeira não é apenas um filme sobre um crime cometido, mas também é um filme sobre narrativas. Sobre como elas são construídas, quem tem o poder de contá-las e, principalmente, quem está disposto a acreditar nelas. O título é também uma forma de manipular o telespectador, pois ao longo de toda a trama, a “verdade” nunca é totalmente alcançada. O que temos são fragmentos, versões e uma constante lembrança de que nem sempre quem narra está comprometido com a honestidade, às vezes está apenas tentando nos convencer de algo.

Até que ponto estamos preparados para reconhecer quando estamos sendo manipulados? E será que, em algum nível, também escolhemos ser enganados quando a mentira nos parece mais conveniente que a verdade?
 

domingo, 6 de abril de 2025

Resenha - A Historia Verdadeira

  O Mundo do Jornalismo e a Dualidade entre Monstro e Vítima 

                       O risco de confiar em um suposto bárbaro vem á tona 

O filme "A História Verdadeira" apresenta a vida de Michael Finkel e como o desenvolvimento de uma relação inesperada com o suposto assassino Christian Longo trará consequências irreversíveis para a vida de ambos.

O longa se destaca no modo de retratar o mundo do jornalismo como um ambiente hostil e intolerante com erros, como é mostrado no início do filme. Além disso ele também ressalta sobre como o interesse financeiro das instituições jornalísticas podem se pôr a frente dos valores profissionais. 

Também é importante ressaltar o ótimo desenvolvimento da relação entre Finkel e Longo e como ela nos leva a mudar de opinião quanto a longo ser ou não o responsável pelo assassinato de sua família.

Além disso, o ritmo lento do filme e questionamentos muitas vezes sem resposta contribuem para manter o interesse no desfecho do caso de longo tanto como a falta de ação e diálogos profundos. 

No entanto, ele peca ao apresentar uma conclusão com pouca emoção, ao contrário do que vinha construindo com o passar do tempo e promovendo uma quebra de expectativa decepcionante para o espectador. 


Gustavo de Paula

Texto IA (Ana Alícia)

O desamparo no tempo das multidões Nunca estivemos tão cercados — e tão sós. As ruas se enchem de passos apressados, os ônibus transbordam d...