Gotas singulares se entrelaçam até formarem aquilo que é tão bonito de assistir para alguns, e tão angustiante para outros. Metaforada, é aquela que tem cheiro de café preto e pão quentinho. Para mim, a chuva remete à infância.
Na verdade, creio que o seu significado sofre uma certa mutação ao longo da vida, como algo que sempre foi e, de repente, nunca mais será igual. As vezes, a chuva chega como tempestades, e que só são eufemizadas nos primeiros anos de vida. Ela é conhecida por seus traços delicados, odores e cores, que só podem ser vistos e sentidos com as lentes corretas. Sempre gostei de falar sobre ela de forma personificada, sendo sua aparência semelhante a de uma criança travessa, que enlameia a casa inteira após brincar do lado de fora.
Algo simples, como o céu platinado, com feixes de luz coloridos o atravessando, cheiro de terra molhada e um orvalho que cobria árvores inteiras, e poças imensas sendo esvaziadas por pesadas galochas cor de rosa. As chuvas costumavam representar os dias mais leves do ano. Estas são algumas das memórias póstumas de uma versão minha que não volta mais.
Hoje, quando olho para fora, vejo esse mesmo teto branco-acinzentado com outras lentes.
Sempre consegui analogizar muito bem. Tinha facilidade para atribuir até à uma simples garoa, uma grande fonte de sinestesia.
Por que vejo apenas o choro do céu agora? A vejo como um grande paradoxo. Um silencio gritante.
Talvez a chuva só fora bonita nas minhas lentes antigas. Nas minhas páginas hiperbólicas, onde tudo era muito. Onde tudo era demais.
Quando foi que o céu perdeu as cores? Quando foi que as galochas pararam de ser cor de rosa?
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