sexta-feira, 21 de março de 2025

A chuva que não cai--- Camila Fagundes

 A CHUVA QUE NÃO CAI-- por Camila Fagundes


 Era para chover. O céu se armou desde cedo, carregado de nuvens que boiavam como pensamentos pesados, prontos para desaguar. O vento correu pelas ruas, sussurrando segredos frios nas frestas das janelas, nas folhas secas que dançavam em desalinho. As pessoas, adestradas pelos avisos do tempo, abriram seus guarda-chuvas, fecharam suas portas, e esperaram.


 Mas a chuva não veio.

 Ficou tudo suspenso, como um soluço que não se completa. O cheiro de terra molhada chegou antes da primeira gota, numa promessa que nunca se cumpriu. Os telhados permaneceram secos, as poças não se formaram, os trovões rugiram à toa. No asfalto, apenas rastros de poeira, marcando o caminho do que poderia ter sido.


 Era uma chuva que queria cair, mas hesitava. Talvez tivesse medo de estragar alguma coisa. Talvez quisesse ensinar que nem toda espera tem resposta, que nem todo prenúncio leva ao acontecimento.


 Na cidade, os rostos se voltavam para o céu, esperando um alívio que não veio. E, no silêncio úmido daquela quase-tempestade, havia um tipo raro de vazio. O vazio das palavras não ditas, das cartas não enviadas, dos gestos interrompidos antes do toque.


 No fim da tarde, as nuvens se desfizeram sem espetáculo. A cidade seguiu seu curso, como sempre, mas algo ficou pairando no ar - uma saudade do que não aconteceu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Texto IA (Ana Alícia)

O desamparo no tempo das multidões Nunca estivemos tão cercados — e tão sós. As ruas se enchem de passos apressados, os ônibus transbordam d...