sexta-feira, 21 de março de 2025

Crônica - O Cão e as Poças (Gabriel Vasconcelos Rebouças)



                   Para Bolinha, a chuva era uma afronta à ordem natural das coisas. O céu, que sempre fora um teto seguro, de repente desmoronava em pequenas gotas frias. E ele, um cão de dignidade inabalável, se via obrigado a enfrentar o caos de um mundo encharcado.    

                 

                Sair para o passeio diário sob a tempestade era um teste de resiliência. As poças espalhadas pela calçada eram armadilhas silenciosas, refletindo um céu que já não era céu, mas um espelho distorcido da realidade. Bolinha as evitava com destreza, desviando-se como quem foge dos infortúnios inevitáveis da vida. Mas o destino - ou o asfalto molhado - sempre guarda surpresas.


                 O momento fatídico veio quando suas patas tocaram uma poça oculta. A água gelada subiu em um espirro cruel. Bolinha congelou. Sentiu na pele - ou melhor, nas patas - a fragilidade de seu controle sobre o mundo. Por um instante, pareceu ponderar sobre a própria existência: e se a vida for isso? Um caminho incerto onde, mais cedo ou mais tarde, todos acabamos pisando onde não queremos?


                 Mas ele era apenas um cachorro. E, como todo cachorro, soube seguir em frente. Chacoalhou-se, correu pra casa, encontrou refúgio no tapete seco. O dono, rindo, enxugou suas patas como quem apaga rastros de um erro inevitável.


                 Lá fora, a chuva continuava a cair, indiferente a tudo. As poças permaneceriam no caminho, esperando. Mas Bolinha aprendera algo naquele dia: não importa o quanto desviemos, sempre haverá um instante em que nossos pés - ou patas - tocarão a incerteza. E, então, só nos resta seguir adiante, sacudir o peso da água e continuar o caminho.



                  

                  

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