Como os famosos da internet estão conquistando espaço em grandes produções
Por: Mariana Gomes
27/10/2024 às 18:27
Nos últimos anos, um novo fenômeno vem ganhando espaço na mídia tradicional: influenciadores digitais, muitas vezes sem formação profissional em atuação, estão migrando das redes sociais para grandes produções televisivas, incluindo programas de auditório e telenovelas. O que antes era um espaço dominado por atores com carreiras consolidadas e apresentadores experientes, agora está cada vez mais aberto a rostos conhecidos da internet. Mas por que isso está acontecendo e qual o impacto dessa mudança no cenário do entretenimento?
A evolução da fama na era digital
Com o crescimento das plataformas digitais, como YouTube, Instagram e TikTok, a fama passou a ser construída de forma completamente diferente do que se via algumas décadas atrás. Não são mais necessárias grandes produções ou contratos com estúdios para que uma pessoa comum se torne uma celebridade. Basta um smartphone e uma conexão com a internet para que um jovem talentoso e carismático alcance milhões de visualizações e construa uma base de seguidores leal.
(Fonte: We Are Social - “As plataformas de redes sociais mais utilizadas no mundo”)
Esse novo conceito de "fama acessível" mudou as regras do jogo no universo do entretenimento. Para as gerações que cresceram com o YouTube e o Instagram, os influenciadores se tornaram os rostos mais conhecidos e, em muitos casos, os substitutos naturais das estrelas de cinema e TV tradicionais. O carisma, a autenticidade e a proximidade com o público são características que fizeram com que esses criadores de conteúdo ganhassem relevância em um curto espaço de tempo.
Aposta das emissoras para conectar-se com a nova geração
Para as emissoras de televisão, a presença de influenciadores digitais em programas e novelas se tornou uma estratégia poderosa para atrair o público jovem, que cada vez mais se distancia do conteúdo tradicional e busca opções no mundo digital. Ao inserir criadores de conteúdo com uma base sólida de seguidores, as produções ganham um apelo imediato para essa audiência, que se sente representada e conectada com figuras que já acompanha nas redes sociais.
Ao incluir influenciadores no elenco, programas e novelas passam a ter maior alcance nas redes, já que os próprios influenciadores promovem essas produções junto aos seus seguidores, gerando um efeito em cadeia de curtidas, compartilhamentos e comentários. Esse movimento cria uma espécie de propaganda espontânea que expande o impacto do programa, algo que estratégias publicitárias convencionais nem sempre alcançam. A visibilidade e o engajamento que essas participações geram nas plataformas digitais, portanto, vão além das telas da TV, mantendo as produções relevantes em uma era de múltiplos meios e formatos de consumo.
O carisma contra a técnica
Essa transição não é totalmente livre de polêmicas. A atuação é uma profissão que requer técnica, preparação e prática. Muitos influenciadores que têm feito a transição para a TV e o cinema têm pouca ou nenhuma experiência formal em interpretação, o que levanta questões sobre a qualidade e o mérito artístico de suas performances. Críticos argumentam que a popularidade online pode estar sendo priorizada em detrimento do talento e da formação profissional.
“A carreira artística não está como antes, hoje qualquer um que aparece na televisão, faz um big brother da vida, já é chamado para fazer trabalhos profissionais. Isso é lamentável, não dão mais valor a própria profissão em si. Antigamente era valorizando quem tinha DRT, preparação, testes.” Disse Júlio Guedes, atualmente professor de teatro e ex ator da Globo.
“Essa habilidade de se conectar com o público de forma direta, que os influenciadores dominaram ao longo dos anos, é um diferencial importante, claro. Eles aprenderam a se comunicar com autenticidade e a construir uma relação próxima com os públicos, algo que pode ser desafiador para atores que seguem uma formação tradicional, onde a ênfase costuma estar na técnica de interpretação de personagens e na estética teatral. Para produtores de televisão, esse tipo de conexão emocional pode ser tão ou mais valioso que uma formação convencional em artes cênicas.” Comentou Larissa Siqueira, estudante de cinema.
Influenciadores nas novelas brasileiras
“No Brasil, onde as telenovelas são profundamente enraizadas na cultura popular, a inclusão de influenciadores digitais nos elencos tem gerado uma divisão de opiniões. Para muitos, essa prática traz um frescor às produções, adicionando rostos familiares do ambiente digital e criando uma conexão com a audiência jovem. Esses espectadores se sentem mais próximos dos personagens, reconhecendo na novela figuras que já acompanham em suas redes sociais.” Larissa Completou.
Há quem veja essa tendência com reservas, argumentando que a essência das novelas exige uma formação e uma experiência em atuação que nem todos os influenciadores possuem. A preocupação de que os papeis principais devam ser interpretados por atores capacitados é comum entre aqueles que valorizam o preparo técnico e artístico característico desse gênero televisivo.
Ainda assim, alguns influenciadores têm buscado melhorar suas habilidades de interpretação, investindo em cursos de atuação e recebendo orientação de profissionais para se adaptarem às demandas da televisão. Esse esforço demonstra a intenção de muitos deles de evoluir, ampliando suas capacidades além do conteúdo rápido e espontâneo que produzem na internet, e mostrando que podem se adequar às exigências das produções tradicionais.
Inovação ou produto da indústria midiática
A influenciadora Addison Rae, conhecida por seu sucesso no TikTok, tem ampliado sua carreira para além das redes sociais ao se aventurar como atriz em produções de grande visibilidade. Sua estreia em filmes como "Ele é Demais" (2021), um remake do clássico dos anos 90 Ela é Demais, trouxe um frescor ao elenco jovem e uma abordagem descontraída que atraiu o público das redes para o streaming. Addison tem inovado ao mesclar sua espontaneidade característica das mídias digitais com a estrutura dos filmes, criando um estilo de atuação autêntico e carismático. Ela também tem buscado se aprimorar, dedicando-se ao estudo da atuação para entregar performances mais sólidas e provar que influenciadores podem sim marcar presença de forma criativa e significativa no cinema.
Além de Addison Rae, outros influenciadores digitais também têm se aventurado no cinema, muitas vezes mais pela popularidade nas redes do que pela experiência em atuação. Um exemplo é a youtuber Liza Koshy, que atuou em Work It (2020), onde trouxe seu estilo enérgico e divertido para um público acostumado com seu humor nos vídeos. Outro caso notável é o de King Bach, que alcançou a fama no Vine e rapidamente conquistou papeis em comédias como A Babá (2017). Esses influenciadores representam uma tendência em que estúdios e plataformas de streaming recrutam figuras conhecidas do ambiente digital para atrair o público jovem e garantir um engajamento imediato, apostando mais no alcance de suas audiências do que no treinamento formal em artes cênicas.
Esse fenômeno levanta o debate: seriam essas iniciativas uma inovação genuína ou apenas produtos de uma estratégia midiática? Por um lado, esses influenciadores trazem uma nova energia e uma relação de proximidade com os espectadores, algo que poucos atores tradicionais conseguem alcançar com a mesma intensidade. Por outro, muitos críticos argumentam que essa "inovação" pode ser apenas um reflexo das demandas do mercado, onde o valor da audiência é frequentemente priorizado em detrimento do mérito artístico e do talento em atuação. Essa prática, então, se revela uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que renova o cinema e a televisão com novas faces, também desafia as definições de qualidade e profissionalismo, questionando até que ponto a fama digital é capaz de substituir o talento desenvolvido na arte da interpretação.
Um novo capítulo no entretenimento
A inclusão de influenciadores digitais no universo das grandes produções, seja em filmes ou telenovelas, representa tanto uma mudança nas preferências do público quanto um desafio para o futuro do entretenimento. Se, por um lado, a presença desses novos rostos atrai audiências jovens e fortalece o engajamento nas redes, por outro, coloca em pauta questões importantes sobre a valorização do talento e do preparo técnico na atuação. Para muitos, essa é uma oportunidade de evolução, de renovar a linguagem e tornar as produções mais acessíveis e dinâmicas. Para outros, trata-se de um movimento que pode colocar em segundo plano o compromisso com a qualidade artística.
À medida que influenciadores e atores se encontram cada vez mais no mesmo palco, o desafio está em encontrar um equilíbrio que respeite o valor da experiência e da formação, mas que também abrace as transformações que a cultura digital trouxe. Talvez a chave esteja na colaboração entre esses mundos: influenciadores que buscam aprimorar suas habilidades e profissionais que se abrem para novas formas de atuação e expressão. O futuro do entretenimento certamente é híbrido, e cabe ao público e à indústria decidirem juntos os próximos passos dessa nova narrativa.
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