Na histórica peça "Romeu e Julieta", em uma troca de declarações do coração Julieta dispara ao seu amado a frase "Mil vezes boa noite", antes de sair de cena, ao que Romeu responde: "Mil vezes pior, querer a tua luz". Pode parecer incompleto, mas o que é dito, e especialmente o que não é dito revela muito nas entrelinhas, tal como no filme Mil Vezes Boa Noite.
O longa conta a história de Rebecca (Juliette Binoche), uma fotojornalista renomada por seu trabalho de denúncia dos horrores das guerras ao redor do planeta. Boa no que faz, acredita em um jornalismo provocativo, cru, onde apenas atráves do choque as pessoas possam sair da zona de conforto e buscar mudar algo dentro de si. Porém se encontra sucesso em sua carreira, enfrenta percalços em sua vida pessoal. Casada com Marcus (Nikolaj Coster) e mãe de duas filhas, ela enfrenta complicações em conciliar trabalho e vida privada, pois seus familiares enfrentam dificuldades em aceitar seu trabalho e os riscos constantes que ela se expõe. Logo após presenciar um atentado terrorista e ser hospitalizada, a tensão e trauma que seus familiares vinham lidando ao longo dos anos ultrapassa os limites. Mais do que isso, enfrentam uma profunda inconformidade e revolta com o fato de que a qualquer momento podem perdê-la.
O dilema é então posto: como conciliar polos tão opostos? Deve-se abrir mão de uma carreira renomada por pressão familiar? Vale a pena correr o risco de perder sua família para continuar fazendo o que faz? O que fazer quando as duas coisas que você mais ama são inconciliáveis?
Para Rebecca, sua profissão não é apenas um trabalho comum que exerce apenas para pagar as contas ao final do mês, é uma forma de viver. É o caminho que ela sabe trilhar, onde suas habilidades como fotográfa, seu olhar sobre o mundo e seu senso de justiça ressoam em perfeita sintonia. Por outro lado, acaba por falhar em suas responsabilidades como mãe e companheira. Como ignorar o desabafo de seu marido, que vive todos os dias uma espécie de luto enquanto espera, impotente, a certeza de uma ligação que informará o falecimento de sua esposa?
Sua filha Steph (Lauryn Canny) é a que parece melhor compreender o drama de todos. Ela possui uma visão madura para a idade, se encontrando em uma posição onde consegue compreender os sentimentos da mãe (a inquietação que sente quanto ao social e seu senso de justiça) e os sentimentos da família (e da insatisfação e frustração que vem de uma mãe ausente, e até certo grau egoísta). Ao longo da trama, ela ajuda Rebecca a encontrar respostas para o seu dilema, que definitivamente não é a resposta "certa" ou "errada" que alguns poderiam esperar, mas a resposta dela, ao jeito dela de ser.
Em uma conversa com seu marido, ela relata que "nunca foi boa em ser normal", e o trama certamente confirma isso. A maioria das pessoas certamente preferiria ter carreiras tranquilas e sem riscos para sua vida, poder retornar para o conforto de suas casas todos os dias e viver em paz com suas famílias. Rebecca deliberadamente se expõe ao risco, chegando ao ponto de entrar em um veíuclo com uma garota vestida com trajes explosivos e pronta para cometer um atentando terrorista, e apesar de tudo ela continua tirando fotos. Porque se submeter a isso? Para conquistar a foto perfeita, aquela tirada de "uma em um milhão"? Pelos holofotes, pelos créditos, pelo ego?
Não, ela faz isso por seu senso de dever. Faz isso vulnerável, porém sem medo, pois sabe que alguém precisa denunciar tudo que acontece a milhares de quilômetros do grande público. Ela faz isso para transmitir uma mensagem para quem não pode ou não sabe como se expressar, e de certa forma, ela mesma não conhece outros meios. Para ela, a função que exerce é tão essencial quanto respirar. É natural, e sem exercê-la sua vida não estaria completa.
Mil Vezes Boa Noite é uma história sobre vocação e sacríficios. Sobre ser fiel a quem você é, e sobre como o silêncio pode abrigar mais do que aparenta, como o luto, dor e resiliência. É uma história onde os personagens não sabem o que será do dia de amanhã, e tal como Julieta declamam mil vezes boa noite, sem ter a coragem de reconhecer a possibilidade do adeus. É uma história onde querem aqueles que amam perto de si, e diante da impossibilidade disto, veem seus desejos de boa noite sem resposta, pois sua amada já saiu dos holofotes há tempos, deixando aqueles que ficam pra trás com a dúvida de quando ela voltará, e se voltará.
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