sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Crônica Tema Livre

     Dia nublado, um pouco frio, com o chiado relaxante da chuva, deixando o orvalho que descansava sob o vidro da janela ainda mais poético.

    Meus olhos abrem. Parecia cedo, mas ao mesmo tempo tão tarde se comparado com o usual, que me pergunto momentaneamente se me atrasei para a aula até checar o horário em meu telefone: 5:41 da manhã.

    "... Por que agora?" Me pergunto em voz alta, a luz do celular acordando ainda mais meus olhos sonolentos. "Eu ainda tinha vinte minutos de soninho..."

    Tento voltar a dormir, mas é inútil. Vinte minutos me remexendo e me virando na cama. Nada. Ao menos desta vez eu acordei em um horário próximo ao que eu de fato precisava acordar.

    Ouço o despertador dos meus pais - o meu foi desativado já tem um bom tempo - e logo menos, os passos da minha mãe em direção ao meu quarto.

    "Mari? Hora de acordar, filha."

    "Eu seeeeeeeeeeeei..."

    "Ora! E você já tava acordada?" Ela pergunta, animada como de costume. Diariamente me pergunto como minha mãe consegue isso, sempre acordar de bom humor. Não me lembro uma vez sequer de vê-la honestamente triste. Ansiosa, talvez, mas triste? Nunca. Sinceramente, invejo esse carisma e otimismo dela, tão contagiantes que me tiram da melancolia em que me encontrava por acordar tão cedo involuntariamente - mas é claro que vou fazer um charminho.

    "Gostaria que não estivesse..." respondo, minha voz ainda rouca.

    "Pois se levante que é hora de aula! Escove os dentes, troque de roupa e desça as escadas que vou preparar um café da manhã pra você," diz ela, enquanto eu relutantemente me levanto da cama, tão quentinha e convidativa, mas sei que seria inútil voltar para tentar dormir novamente. "Leite e waffles?" Minha mãe pergunta.

    "Leite e waffles," repito afirmativamente.

    Troquei-me com o pouco de dificuldade que sempre tenho ao me trocar junto de três cachorros querendo brincar. Com que energia eles pulam em mim eu já não faço ideia, porque eu ainda preciso de um bom café da manhã para acordar de vez.

    Desci as escadas e meu pai já estava lá, comendo seu ovo com queijo e tomando seu café com leite, pronto para me deixar na aula.

    Sentei-me à mesa e comecei a comer, grata pelo café que minha mãe cuidadosamente preparou. Das quatro cadeiras, apenas três estavam ocupadas; minha irmã mais velha sempre fazendo falta.

    "Recapitulando," começou minha mãe, "hoje eu trabalho somente à tarde, então você, Neto," ela se virou para meu pai, "deixa a Mariana na faculdade e eu a busco para almoçarmos. Depois, ela fica em casa pra dar o almoço dos meninos," diz ela se referindo aos cachorros, que estavam conosco, deitados aos pés da mesa, "estamos combinados?"

    Eu e meu pai assentimos, quase sincronizados e espelhados. São aquelas coisas de pai e filha que parecem até geneticamente herdadas.

    No carro, meu pai começa com sua infinita, estupenda e maravilhosa coleção...

    ...De piadas ruins.

    "Ei, Mari."

    "Hum?"

    "Existia um cachorro que vivia fora de casa, e a mulher que criava ele começou a chamá-lo de Pra Dentro, pra facilitar o chamar dele pra dentro. O tempo passou e o cachorro cresceu, aí a mulher começou a querer ele mais pra fora de casa, deixando assim o cachorro confuso, porque ela vivia falando 'Pra Dentro, pra fora! Pra Dentro, pra fora!'"

    O encarei com um olhar inexpressivo enquanto ele me olhava com um sorriso do tamanho do mundo.

    "Piada de pai," ele disse sorrindo.

    Até que a risada escapou. Não aguentei o péssimo senso de humor dele.

    Impossível deixar de amar esses dias, tranquilos como o orvalho que me agraciou nesta manhã de sexta-feira.


Mariana Rodrigues

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