Pequena Amostra
Por Luanna Moura
Se o inferno pudesse se materializar na terra, eu diria que ele tomaria a forma de um ônibus lotado logo de manhã cedo.
Parece um tanto exagerado, mas é algo que penso todos os dias quando me encontro na parada, esperando o fatídico veículo de número 41 — que passa no terminal da Parangaba e leva quase metade da população de Fortaleza num espaço de 50 metros quadrados. A outra opção é o ônibus 24, muito mais simpático e frequentemente mais vago que o seu alternativo. Infelizmente, às 6:30 da manhã de uma segunda-feira, não há para onde fugir: todos estão lotados, e toda vez que coloco os pés nos degraus de entrada, sei que a porta pode fechar nos meus braços, nas minhas pernas ou nas minhas costas, puxando minha mochila para fora.
O motorista nem sempre é simpático, mas ele sempre vai abrir a porta da frente, nem que seja para que os pobres trabalhadores no ponto de ônibus vejam que é impossível se colocar ali nem que seja por um milímetro. O motorista é, afinal de contas, aquele que irá nos acompanhar numa viagem desafiadora até nossos destinos finais, e ele pode — se lhe convier — nos avisar do que está por vir.
Na pequena amostra infernal que é o ônibus lotado antes das sete da manhã, é possível encontrar de tudo: crianças chorando, pessoas dormindo, idosos falando alto ao telefone, pregadores de igreja desafinados, um grupo de amigos da mesma faculdade, grávidas, deficientes físicos, vendedores de jujuba, homens tatuados até o pescoço, adolescentes de cabelo colorido, dentre diversos outros exemplos. É uma amostra da cidade, dos mundos que nunca teríamos contato fora das nossas bolhas.
Mas imagine o mundo inteiro reunido em um espaço apertado e limitado? É claustrofóbico, sufocante, irritante e asfixiante. A mistura de aromas pode ser suportável ou intragável dependendo da sorte. Ainda que eu goste de pensar que sou muito cabeça fria, há viagens que desafiam minha sanidade mais do que outras. Lido com isso da melhor forma que posso. Se eu pudesse me classificar, eu estaria no grupo dos passageiros estratégicos, um dos muitos que não consegui citar. Dentro do ônibus, eu já não sou uma humana comum: sou uma humana-ameba, distorcida e maleável, me espremendo entre as pessoas até o lugar mais fundo do veículo.
Lá, a sensação de sufocamento não acaba, sendo tomada por uma raiva descomunal por todas as pessoas ao redor. As portas abrem, parada por parada, e nenhuma pessoa sai. Às vezes uma põe os pés para fora, seguido de outra, mas o espaço continua apertado. A viagem parece sem fim, os ponteiros do relógio andam para trás e a única coisa que sei é que já amaldiçoei mais de dez pessoas por motivos muito fúteis, como respirar pesadamente perto do meu pescoço ou usar um perfume enjoativo.
E só me resta pensar: será que sou assim mesmo, tão detestável?
Mas as portas finalmente se abrem para mim. Eu pulo para fora, e o ar fresco invade o meu corpo junto com a luz do sol. Respiro bem fundo e penso: escapei do inferno, até que enfim!
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