O poder é, provavelmente, o produto mais procurado no mercado das futilidades humanas. Creio que nunca conheci alguém livre dessa corrida.
O poder pode ser, e deve ser, aquilo que nos torna abundantes e nobres. Algo que produz, que enriquece, e que agrega. Deve ser aquilo que norteia e que salva, a qualquer custo, tudo aquilo que se encontra perdido.
Mas com o passar do tempo, o significado de poder se tornou algo que deve ser temido, algo mais limítrofe à superioridade, e talvez sempre tenha sido. Talvez o significado de poder só faça sentido quando idealizado, mas não é assim que acontece quando sai do papel. A nobreza corrompe e mata desde o mundo é mundo. Quando começou a ser distribuída a um nicho tão pequeno, que suas entranhas foram modificadas. Governos aristocráticos que declaravam guerra contra seu próprio povo, e assim seguiu.
Em dicionários, poder é virtude e talento. Na prática, é ganancia e avareza.
Acho que eu não teria uma visão tão pessimista sobre o poder se o tivesse experienciado de outra forma. Se eu tivesse visto meus pais triunfarem, ao em vez de serem engolidos por seus respectivos cargos ao longo da vida. Se eu tivesse assisto meu país ascender em governos distintos. Se eu tivesse visto meu povo enriquecer, de bolso e de alma. Se eu não tivesse assistindo na televisão, nesse exato momento, o planeta se esvaindo em guerras, dirigidas e roteirizadas por homens brancos de meia idade, que prometeram tornar “a America grande novamente”. Se eu não estivesse acompanhando por telas ricassos tomando os direitos de mulheres, que sequer alcançaram o que reivindicavam, enquanto gargalham e socam ainda mais notas no bolso. Se eu não estivesse temendo a autofagia da minha própria nação. O poder nos tornou pobres.
Talvez a busca incessante pelo controle, pelo poder, torne todos nós criaturas amargas, e indispostas de abrir mão de tudo aquilo que pode vir a nos tornar “menos”. Menos que um chefe, ou um colega de trabalho. Menos que algum familiar, ou menos que um amigo. “Fico feliz por você”, é a frase que sucede o momento em que seu colega de trabalho consegue uma promoção, ou um aumento. Ou a frase que sucede o momento em que seu amigo anuncia seu noivado, logo após você ter sofrido por um término. Mas até onde isso é um dizer sincero? A tentativa de controle sobre o triunfo alheio também é uma forma de demonstrar autoridade.
Acho felicidade pelo sucesso do outro acaba quando ela ameaça o nosso sentimento de superioridade sobre ele.
Acredito que é intrínseco do ser humano querer ser maior, melhor, que tudo e que todos. “Fico feliz por você, a menos que você esteja acima de mim, ou contanto que esteja abaixo de mim.” Talvez essa seja a expressão correta para descrever o sentimento egocêntrico do humano que precisa ser sempre mais.
Dias após dia, o poder se torna, cada vez mais, um mal. O poder é o mal que nos consome, que luta contra nossos princípios, que nos faz, incansavelmente, aspirarmos por uma existência luxuosa, para que possamos que arcar com as próprias mesquinharias. É um ciclo. Alimentamos o sistema ao nos tornarmos os robôs, sedentos pelo topo, que ele nos projeta para sermos.
Uma eterna submissão ao ego de terceiros. Somos eternamente reféns do fracasso alheio.
Ter poder, empobrece.
E a falta dele, te empobrece.
O que é poder afinal? Tempo? Dinheiro? Sucesso? Virtude? Pobreza? Fome?
Depende do seu ponto de vista. Depende da sua posição.
Sistemático.
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