Crônica sobre a chuva em Fortaleza
“Quando a cidade chora”
Em Fortaleza, a chuva não chega como quem pede licença. Ela vem como uma visita que esqueceu que estava atrasada. Quando o céu escurece no meio da tarde e o vento levanta poeira com cheiro de terra molhada, todo fortalezense já sabe: é hora de correr.
A cidade, tão solar, estranha esse cinza súbito. Guarda-chuvas se abrem como flores nervosas. Crianças param para ver as poças se formarem — e, às vezes, mergulham nelas com um tipo de alegria que só a infância entende.
Mas a chuva aqui também revela rachaduras. Ruas viram rios, ônibus se transformam em barcos aflitos, e a pressa da cidade afunda em cada esquina alagada. A poesia vira caos. E mesmo assim, há beleza. Uma senhora observa a água cair, protegida por uma rede na varanda. “É Deus refrescando o mundo”, ela diz.
Em Fortaleza, a chuva é protesto e alívio, castigo e bênção. Ela nos lembra que até o céu, de vez em quando, precisa desabar.
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