No metrô lotado das sete da manhã, rostos se evitam como se o olhar fosse um fardo. Cada um mergulhado em sua tela, fones de ouvido blindando o mundo. Ninguém conversa. Ninguém sorri. Há pressa, mas para onde?
Marina perdeu o emprego há dois meses. Tentou conversar com a mãe, com a amiga, com o marido. Todos estavam ocupados. “Vai dar certo”, disseram, como quem afasta um inseto incômodo. Ela sorriu de volta, mas era só cansaço. E desânimo, claro. Ser deixada de lado nunca foi motivo de felicidade.
Carlos, na porta do elevador, hesitou entre apertar o botão do décimo ou descer de vez. Não desceu. Chegou ao trabalho, fez o que devia, voltou para casa. Ninguém percebeu que ele chorou no banheiro. Três vezes. Mesmo com o rosto vermelho e os olhos baixos, ninguém percebeu. Se percebeu, não quis se envolver, pois "ia ocupar muito do tempo".
Na sociedade dos likes e das mensagens instantâneas, a solidão se esconde atrás de selfies bem iluminadas. Nunca estivemos tão conectados — e tão distantes. O desamparo virou norma, e pedir ajuda, fraqueza. Desde quando estamos assim?
E no fim do dia, o indivíduo se deita com o peito apertado e o coração gritando baixo, abafado pelo barulho de notificações. O travesseiro é confidente. A madrugada, cúmplice. O mundo, surdo.
Mas amanhã tem mais. Sempre tem.
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