Crônica: O Peso do Vazio (IA)
Era uma segunda-feira comum, dessas que nascem cinzentas antes mesmo do céu decidir chover. João desceu do ônibus lotado e caminhou até o escritório, engolido por uma multidão apressada. Em cada rosto, um mundo fechado, selado por fones de ouvido, telas brilhantes e silêncios ensurdecedores. Ninguém se olhava. Ninguém se via.
No elevador, o silêncio era mais pesado que os próprios andares. Lá em cima, no cubículo 305, João passou oito horas preenchendo planilhas que ninguém leria, sob luzes artificiais que não aquecem nem a alma. No intervalo, almoçou sozinho — de novo — enquanto rolava notícias trágicas com o mesmo dedo que ignorava mensagens.
O tempo todo com os olhos no relógio. E sentido que o tempo não passava, o rapaz resolveu bloquear os pensamentos, mas só se sentia mais angustiado a cada ideia que invadia sua mente. João passava por uma crise existencial e esses acontecimentos faziam parte do autoconhecimento, e os pensamentos de João eram afetados por seu comportamento e não entendia que o desamparado foi ocasionado por seu individualismo extremo, ou talvez, egoísmo.
À noite, em casa, ligou a TV para não ouvir seus próprios pensamentos. As redes sociais mostravam amigos sorrindo, casais felizes, vidas editadas com filtros de entusiasmo. Ele, no entanto, só queria um abraço que não viesse com legenda. Sentia-se como um arquivo esquecido numa nuvem qualquer.
Na hora de dormir, o choro vinha, um vazio enorme tomava conta de seu corpo, mente e espírito. Uma solidão disfarçada de solitude, e no final de cada dia, era sempre aterrorizante. Os pensamentos vinham como uma avalanche de sensações e sentimentos que, para serem aliviados, só precisava de alguém para ouvi-lo e cuidar de suas feridas. Mesmo assim, ele continua sozinho em um mundo de pessoas vazias.No fundo, João sabia: o mundo gritava conectividade, mas sufocava em solidão. E o desamparo não era o abandono do outro — era o desaparecimento de si mesmo em meio a tantos ruídos. - Ismaely Lima
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