terça-feira, 3 de setembro de 2024

Texto Livre (Sobre o livro: É assim que acaba)

     Já me contaram que os piores medos são os que não conseguimos ver, o medo de perder alguém, o tédio de pertencer sozinho. Mas será que vale o preço, de viver com medo, preso ao encarceramento de ter alguém tão cercado por linhas trêmulas de raciocínios vagos, que colocam a sua vida em uma esfera de tormenta?

    Lily Bloom cresceu com a presença dessa esfera, vindo do pai violento, e a mãe vagando cegamente, acreditando ser a culpada por tudo que estava fora de seu controle, pondo a vida da filha em risco, e a sua própria também.

    Acredito que julgamos alguém quando também temos o mesmo hábito, é mais fácil assim, já que assumir errar pelo mesmo motivo seria considerado uma fraqueza, ou no mínimo uma interrogação para seu próprio "eu interior".

    Quando Lily se tornou adulta, conseguiu ver a esfera da mãe se tornar a sua própria, com a morte do pai, e o desejo de suprir aquela falta, aquele amor que lhe foi negado, negligenciado. O mesmo medo que calou a sua mãe, mais tarde a calaria, com um beijo de boa noite, e promessas de mudanças que nunca chegariam. 

    Quando se está na esfera, as imagens são tão embaçadas, que Lily conseguiu ver exatamente o que a mãe enxergava em seu pai, era uma imagem errônea, turva, mas era tão bonita. Só tinha uma coisa, não era verdadeira. Era uma desculpa após um almoço que saiu fora do planejado, ou um "Eu vou mudar" após um jantar que já estava perfeito. O problema não estava no durante, estava dentro da esfera, só que sair dela não era a parte difícil, mas sim, ver que estar lá dentro era tão fácil, sem nem perceber. 

    E quando perguntou o que a mãe via no pai para ter permanecido naquela esfera por tanto tempo, recebeu como resposta, "Eu o amava". Foi o momento que a vida de Lily explodiu em criação, como se algo finalmente obtivesse um começo, meio e fim. 

    Foi o perdoar o pai, sem excluir o passado, o perdoar do seu momento atual, como quando uma criança aprende com algo que não deu certo. Foi o perdoar a mãe pelo medo de sair daquela esfera que Lily só via por fora, mas não fazia ideia do quão turbulento era por dentro. Agora, Lily sabia

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