segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

“Impotência” — Crônica baseada no filme “O escândalo”

 

IMPOTÊNCIA


O silêncio não é um acaso. Ele é construído, alimentado, imposto. Ele cresce entre piadas que ninguém ousa questionar e olhares sugestivos que preferimos ignorar. Cresce nas redações, nos tribunais, nos palácios onde decisões são tomadas por aqueles que nunca sentiram o medo que sentimos. Cresce no receio de ser desacreditada, ridicularizada, de ser reduzida ao exagero, à histeria.

Homens poderosos contam com esse silêncio. Eles não precisam sujar as mãos, porque o sistema faz o trabalho por eles. Protege, esconde, relativiza. Quando uma mulher fala, sua voz é questionada antes mesmo que suas palavras sejam ouvidas. Se denuncia, é acusada de ter intenções ocultas. Se cala, é conivente. O jogo foi desenhado para que elas sempre percam.

O que assusta não é apenas a impunidade. É a normalização. O ciclo se repete com a precisão de um relógio bem ajustado: uma denúncia surge, a sociedade finge indignação, talvez um nome seja derrubado, mas o sistema segue intacto. Troca-se o rosto, nunca a estrutura. No final, o homem que caiu se reinventa, encontra outro espaço, outro título, enquanto a mulher que ousou falar carrega isso consigo para o resto da vida.

E não são apenas os homens que perpetuam isso. Muitas mulheres, pressionadas pelo medo ou pela conveniência, acabam reforçando as engrenagens dessa máquina. Não porque concordam, mas porque sabem que desafiar o jogo significa arriscar o próprio sustento, a própria segurança. Quem as protegeria se decidissem falar? Se até as vítimas são punidas, o que acontece com quem ousa ficar ao lado delas?

Cúmplices no mesmo pacto de conveniência, o capitalismo e o machismo andam juntos. Homens ricos dificilmente enfrentam consequências, porque o próprio sistema foi feito para protegê-los. Eles dominam, não porque o jogo favorece sua posição, mas porque foram eles que escreveram as regras. E, enquanto estiverem no comando, qualquer mudança será apenas estética. Um novo rosto, um novo discurso, mas a mesma história.

E isso é apenas a realidade, nua e crua. Uma realidade que se repete todos os dias, sem alarde, sem manchetes, porque a verdade mais cruel sobre o poder é que ele raramente precisa se justificar.


Texto IA (Ana Alícia)

O desamparo no tempo das multidões Nunca estivemos tão cercados — e tão sós. As ruas se enchem de passos apressados, os ônibus transbordam d...